Gisela Câmara: “Através do curta, novos profissionais são formados”

Gisela Camara

Gisela Camara

“Veja filmes, estude cinema e esteja disposto a trabalhar muito.” Esta é a dica da produtora Gisela Câmara para os jovens cineastas que vão participar do “Curta Criativo”. Segundo ela, é importante também identificar a sua turma e procurar pessoas com que tenha afinidades estéticas, pois é preciso estabelecer uma relação de confiança com aqueles com quem trabalha.

Gisela ainda falou da importância dos curtas na formação de novos cineastas e na carreira de profissionais mais experientes. “É através do curta-metragem que novos profissionais são formados e, também, profissionais que já estão no mercado há anos têm a oportunidade de exercer funções de responsabilidade maior do que as que exercem em longas-metragens”, afirma.

Confira a entrevista exclusiva de Gisela para o blog, onde ela comenta também as diferenças entre a produção de documentários e filmes de ficção, a experiência de ter sido jurada do “Curta Criativo” no ano passado, a relevância do concurso para a indústria audiovisual e outros assuntos.

Você exerce uma série de tarefas durante a produção de um filme. É produtora executiva, mas também pode cumprir o papel de assistente de direção, além de pesquisadora de personagens e produtora de finalização, entre outros trabalhos. Há algum que prefira desempenhar?

Gisela Câmara: Gosto muito de participar do processo criativo dos filmes. Vejo a função de produtora sob esse aspecto. A produtora de um filme é aquela que trabalha junto ao diretor desde o início do projeto (o roteiro, no caso das ficções), até o lançamento do filme. Participa ativamente nas várias versões do roteiro, ajuda a desenhar elenco e equipe e, por fim, traçar uma estratégia em que fique claro aonde o filme pretende chegar quando finalmente for encontrar o seu público. Então, nas ficções, o trabalho que prefiro desempenhar é o de produtora executiva. Gosto muito de finalização também e sempre gostei da parte técnica, e geralmente finalizo os filmes que produzo. O processo de produção de um filme é muito intenso, e gosto de participar de seu todo. Finalizar o filme me permite estar intimamente conectada com ele, até o momento em que o filme finalmente vai para a tela. O trabalho de produtora viabiliza essa relação com o filme.

Quando trabalho em documentários, gosto muito de fazer pesquisa de personagem, pois desta forma conheço pessoas e realidades que talvez não tivesse a oportunidade de conhecer se não fosse desta maneira. E isso também me dá bastante prazue er. De certa forma, acho que o papel de assistente de direção e de produtora têm esse lado muito forte em comum, que é dar suporte e viabilizar criativamente o trabalho do (a) diretor (a).

Você já trabalhou em obras brasileiras e estrangeiras. Essas produções diferem de alguma forma, seja na maneira de produzi-las, seja na organização?

Gisela: O cinema brasileiro está cada vez mais profissionalizado, assim como o desenho de equipe obedece a uma formação padrão, muito inspirada no desenho de equipe norte-americano. Todos os longas estrangeiros dos quais participei eram grandes produções, e, por isso, bem maiores do que as nossas produções nacionais. Os estrangeiros têm muitas demandas que são básicas para eles, mas que para nós são luxo. Então, de uma forma geral, aprendo muito com esse tipo de filme, pois eles têm técnicas de produção que podem ser aplicadas em qualquer tamanho de filme. Acho que, substancialmente, o que muda, de produção para produção, é o tamanho do orçamento, que dita o desenho. Os profissionais são igualmente sérios e capazes.

Existem diferenças entre a produção de documentários e filmes de ficção?

Gisela: Dependendo do documentário, existem muitas diferenças. O “Meninas”, por exemplo, filmamos ao longo de um ano, com um desenho de equipe e uma maneira de trabalhar muito específica, que criamos para esse filme por causa do dispositivo que a Sandra Werneck propôs: acompanhar o cotidiano de quatro jovens ao longo de suas gravidezes. Mas tem documentários que são praticamente re-edições de material de arquivo, outros, como o do Vinícius de Moraes, do Miguel Farias, por exemplo, que tem uma parte “fictícia”, que era uma espécie de cabaré em que artistas convidados interpretavam textos e canções escolhidas, ou seja, nos documentários, a produção se adequa à proposta do “roteiro”. A produção de ficção é mais padronizada. Claro que cada filme é um filme, mas existe um procedimento sistematizado que acontece na maioria das produções.

E entre curtas e longas-metragens?

Gisela: Nesse caso, a diferença está mesmo no orçamento. O tamanho do orçamento e o roteiro determinam a forma de produção.

Como é o seu dia a dia como produtora executiva da Limite Produções?

Gisela: Eu saí da Limite no ano passado para trabalhar com o Jorge Durán no filme em que ele ia começar a finalizar, “Não se Pode Viver sem Amor”, do qual sou produtora associada, e trabalhar no desenvolvimento do próximo, “Romance Policial”. Desde então estou trabalhando como produtora executiva da El Desierto Filmes. O dia a dia depende muito, mas geralmente passo o dia no escritório, trabalhando no computador, que hoje em dia é uma grande ferramenta de comunicação, alem de ter várias outras utilidades.

Qual a importância de concursos de curtas-metragens, como o “Curta Criativo”, para a indústria audiovisual?

Gisela: Concursos como esse são fundamentais para o formação e fomento da nossa indústria. Claro que o curta-metragem não é um formato comercial ou, pelo menos, é um formato de comercialização mais difícil que os longas, o que não diminui sua importância. É através de curta-metragem que novos profissionais são formados e, também, profissionais que já estão no mercado há anos, têm a oportunidade de exercer funções de responsabilidade maior do que as que exercem em longas-metragens, por exemplo. Isso sem falar da oportunidade de jovens talentos exercitarem sua criatividade e de conseguirmos identificar novos diretores e roteiristas.

Você foi uma das juradas do concurso na última edição. Como foi a experiência?


Gisela:
Foi muito rica. Tínhamos 80 filmes para serem vistos, e a Lucy Barreto, que era presidente do júri, propôs que fizéssemos algumas sessões para vermos os filmes juntos. Eram encontros animados, em que tivemos tempo para conviver um pouco e debater cinema, dramaturgia, produção etc. Como hoje em dia estamos sempre correndo muito, gostei muito de abrir essa “janela” para ver o que está sendo feito por jovens estudantes de cinema.

Que conselhos daria a um jovem cineasta que quer ingressar no mercado cinematográfico?

Gisela: Veja filmes. Estude cinema e esteja disposto a trabalhar muito. Entenda que o cinema obedece a uma hierarquia militar, e que é um trabalho em equipe. É necessário estabelecer uma relação de confiança com aqueles que trabalha. Procure identificar sua turma: pessoas que tenham afinidades estéticas com você e com quem poderia trabalhar. Mesmo que, hoje em dia, a tecnologia tenha democratizado o acesso, procure conversar e trabalhar com quem já tem experiência. Mas, sobretudo, veja muitos filmes, que eles nos ensinam muito.

pipocaPipocas

De que filme mais gosta?

Gisela:
Difícil ter um filme preferido. Eu amo “Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomaz Gutierrez Alea. Adoro “El Elefante y la Bicicleta”, de Juan Carlos Tabío, um cubano que depois fez “Morango e Chocolate” com o Alea, e os filmes do Julio Medem (“Os Amantes do Círculo Polar”, “Lucía e o Sexo”, “Vacas”). Adoro um filme que só vi uma vez, em uma mostra organizada pela Susana Schild na Cinemateca do MAM: “The Joy of Life”, um dos primeiros filmes do Ingmar Bergman. Adoro “Bye-Bye Brasil”, “Eles Não Usam Black-Tie”, “O Céu de Suely”, “Praça Saens Peña” e “Proibido Proibir”. De documentário, gosto muito de “Super-8 Stories” do Emir Kusturica, do “Notícias de uma Guerra Particular” e “Santiago” do João Moreira Salles, e “Jogo de Cena”, do Coutinho. E adoro o “Pan Cinema Permanente”, do Carlos Nader, sobre o Waly Salomão.

Qual a cena ou diálogo que mais te marcou no cinema nacional?

Gisela: Adoro quando o personagem principal do “Memórias do Subdesenvolvimento” olha pela janela do apartamento dele em Paris e comenta sobre o Picasso ter dito que iria fazer uma escultura para colocar em Havana no lugar da estátua do colonizador espanhol: “É muito fácil ser comunista em Paris.”

Adoro a cena do “Céu de Suely” em que a protagonista vai pedir ajuda à sogra. A senhora então explica que o seu filho, ou seja, o “marido” de Suely, ainda é muito jovem para ter que ficar preso a ela, Suely, e ao filho que tem com ela. A protagonista fica revoltada, afinal ela também só tem 21 anos, e ninguém pensa se ela se sente “presa” ou não à responsabilidade de ter que criar e sustentar o filho sozinha. Essa cena para mim revela como o machismo está enraizado na nossa sociedade e sendo mantido por algumas mulheres. Com poesia, sem clichês ou discursos, revela a dor e a solidão da personagem, que naquele momento percebe o quanto é sozinha.

Com quem você não deixa de trabalhar nunca (faz sempre parte de suas produções)?

Gisela: Tenho sorte de ter muitas amigas que são produtoras muito competentes. Mas nem sempre consigo trabalhar com elas, como todas são free-lancer, nem sempre conseguimos coincidir os cronogramas. Mas até agora tive sorte em conseguir montar equipes com pessoas muito queridas e competentes. Tomara que continue assim!

Dê uma dica de três filmes nacionais a que os novos cineastas não podem deixar de assistir.

Gisela: “Antes que o Mundo Acabe”, da Anna Luiza Azevedo, pelo uso da voz em off, o elenco, a realidade daquela cidade pequena do sul do Brasil. “Não se Pode Viver sem Amor”, do Jorge Durán, pelo uso pouco usual da realidade. (Esse sou suspeita, pois sou produtora associada, mas realmente gosto muito do filme.) “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo”, do Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Poesia pura.

O que é mais importante na produção de um curta-metragem?

Gisela: Um bom roteiro, que caiba dentro das suas possibilidades de produção, e uma equipe afinada, que acredita no que está fazendo.

Um comentário para “Gisela Câmara: “Através do curta, novos profissionais são formados””

  1. [...] verdade, um codiretor. “Ele discute o roteiro, a montagem, o público-alvo, etc.” A produtora Gisela Câmara tem a mesma opinião. “O produtor de um filme é aquele que trabalha junto ao diretor desde o [...]

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