Presidente da ABDeC: internet e celular são novas possibilidades para cinema

Clementino Junior_por Vivian Ribeiro

Clementino Junior/ Foto: Vivian Ribeiro

A internet está se tornando algo cada vez mais importante para o cinema. Segundo Clementino Junior, presidente da Associação de Documentaristas e Curta-Metragistas do Rio (ABDeC-RJ), o veículo, assim como os celulares, é um ótimo espaço para exibição. “A tendência é pensarmos qual o papel que o curta-metragem terá neste novo momento, e ele tem chances de se tornar o padrão.”

Em entrevista exclusiva para o “Curta Criativo”, o presidente da ABDeC-RJ afirmou que o curta precisa deixar de ser visto como experimentação pelos seus exibidores e começar a merecer remuneração por seu valor. “Não podemos permanecer usando os principais portais de exibição como portfólios. A experiência desejada por um cineasta é a exibição em uma tela de cinema.”

Clementino falou ainda sobre o futuro das produções de curta-metragem e deu dicas para os jovens cineastas que estão pensando em participar do nosso concurso, na categoria Documentário. Confira:

1.    Quais são os projetos desenvolvidos pela ABDeC-RJ para incentivar os curtas-metragistas e documentaristas do Rio?
Clementino Junior:
A Associação Brasileira de Documentaristas e Curtas-Metragistas – Seção Rio de Janeiro é uma associação de classe, e nossa função no momento, além de acompanharmos e participarmos ativamente da política cultural para o curta-metragem e o documentário, é participar e incentivar iniciativas regionais que abram janelas de exibição e valorizem esses gêneros cinematográficos.
2.     Como você avalia o mercado de curta-metragem no Brasil? Você acha que ele está mais ativo?
Clementino: Atividade não significa reconhecimento. O curta-metragem no momento encontra nos festivais de cinema e vídeo sua principal janela de exibição. A internet está caminhando ainda para se tornar uma janela importante, mas enquanto o curta-metragem for visto pelos exibidores como experimentação e não como obra que mereça ser remunerada por seu valor, permaneceremos usando os principais portais de exibição como portfólios, enquanto a experiência desejada por um cineasta é a exibição em uma tela de cinema. Seja obra em película ou digital. As emissoras de televisão também tratam o curta-metragem como subproduto, o que nos entristece quando procuram a cineastas em listas em busca de cessão gratuita de obras para exibição. A internet tem se tornado um ótimo espaço para obras feitas para exibição em baixa resolução, assim como os celulares… A tendência é pensarmos qual o papel que o curta-metragem terá neste novo momento, e ele tem chances de se tornar o padrão.

3.    Em uma das palestras promovidas pelo “Curta Criativo”, muito foi falado sobre o futuro da produção de curtas-metragens. Para você, é possível dar vida longa a um curta-metragem? Como isso pode ser feito?
Clementino: Como falei, a internet e os celulares se apresentam como novas janelas de exibição, e como os jovens deste século, que são grandes consumidores, preferem os celulares e os computadores à TV, e nesses nichos a menor metragem continua sendo a mais amistosa, inclusive com o surgimento de projetos que privilegiam a interatividade, o curta-metragem segue um caminho natural para se firmar nesses espaços, mas sem esquecer que tem méritos para ocupar também a TV e o cinema.

4.    Alguns de nossos entrevistados afirmam que fazer um curta-metragem é o primeiro passo para um longa-metragem. Você concorda com esta afirmação? Por quê?

Clementino: O curta-metragem é um produto como um longa. Ele será visto como primeiro passo se a ambição do curta-metragista é fazer longas-metragens, mas este não é o único caminho. Independente da discussão de méritos, e graças aos interesses por leis de incentivo, muitos diretores de comerciais, atores, entre outros, que não tinham um curta-metragem no currículo, se aventuraram no longa-metragem. A grande barreira para o longa-metragem ainda são os mecanismos de fomento, e em alguns casos um bom curta-metragem pode ser realizado com pouco dinheiro (alguns casos) o que não acontece com o longa, onde “um pouco dinheiro” daria para realizar vários curtas-metragens.
5.     Em sua opinião, quais são os critérios que devem ser levados em consideração quando se pensa em fazer um documentário?
Clementino: O documentário, neste momento, é o gênero que mais carece de critérios para não cair no clichê. As diversas oficinas audiovisuais que têm acontecido pelo país estão criando inúmeros documentaristas, que têm surgido em maior número do que os realizadores de ficção, mas continuamos dependentes de, a partir de um tema, saber contar uma boa história. A linguagem surge daí. Tudo que fazemos são criações que carregam nossas referências, e sempre teremos bons trabalhos quando soubermos que nossos documentaristas se debruçaram na pesquisa sobre seu objeto de estudo. Um personagem bem estudado e observado criticamente já é metade do caminho andado para um bom produto, mesmo que feito da maneira mais clichê possível.
6.    E para fazer um curta-metragem, qual é a sua dica?
Clementino: Tenha algo a dizer… pode parecer óbvio, mas é a alma do negócio.
7.     Como os jovens que pensam em fazer cinema podem se preparar para o mercado?
Clementino: O caminho continua sendo se interessar pelo que acontece na política cultural e no mercado profissional que envolve sua área de atuação, suas ramificações, e partindo daí considerar (sem priorizar) a existência de seu projeto dentro do ambiente e do momento que seu nicho profissional atravessa.

pipocaPipocas:
De que filme mais gosta?

Clementino: “A Cor Púrpura”.

Qual cena ou diálogo mais te marcou?
Clementino: A cena do discurso final do filme “Guelwaar”, do cineasta senegalês Ousmane Sembéne, primeira obra do continente africano à qual assisti, e que mudou meu modo de ver a África e seu cinema.

Com quem você não deixa de trabalhar em seus projetos? Quem não pode faltar em suas produções?
Clementino: Alexandre Loureiro (Alexl) compositor e arranjador de 80% das trilhas de meus filmes e trabalhos comerciais e institucionais.

Indique três filmes indispensáveis na formação de um jovem cineasta.
Clementino: “Cidadão Kane”, “Terra em Transe”, “Janela Indiscreta”.

O que não pode faltar em um curta-metragem?
Clementino: Uma equipe não burocrática, envolvida com a proposta do filme e que mantenha um bom diálogo com o realizador.

5 comentários para “Presidente da ABDeC: internet e celular são novas possibilidades para cinema”

  1. Aloysio Neves disse:

    Ótima entrevista.
    Acho que como espectadores, devemos cada vez mais propagar os bons curtas e ajudar que tenham lugares de mais destaque nas mídias culturais, uma exposição merecida.

  2. Denise Guerra disse:

    Adorei a entrevista especialmente pela clareza e segurança que o cineasta Clementino transmite em sua fala. A elaboração de um presente com bons olhos no futuro é muito importante. Muito se perdeu por falta de planejamento e valorização das tendências culturais sem esquecer das tradições. Parabéns ao site e ao Cineasta Clementino Junior!

  3. Christina Morais disse:

    Eu sou do tempo que quando íamos assistir a um filme, tinha antes o jornal “CANAL 100″ e um curta-metragem, geralmente víamos mais de uma vez o mesmo curta porque naquela época se fazia mais longas. Agora que temos verdadeiras obras-prima na forma de curtas, devia ser batalhado p/ que retornasse essa “obrigação” de exibição dos curtas. A eleição é obrigatória, só agora é que conseguimos rifar a VOZ DO BRASIL, porque não pode ser o mesmo para os curtas? Fica aí minha sugestão.

  4. Ótima entrevista. O Clementino expõe com clareza e objetividade pontos importantes sobre este “primo pobre” do cinema, o curta. Vida longa ao curta!
    E que tenhamos docs mais criativos e interessantes também. Como diz ele, pesquisa é fundamental.

  5. Valéria da Silveira disse:

    Concordo com o presidente!
    Existem curtas muito bons e que não tem espaço para exibição. Podia-se abrir este espaço de exibição antes dos longas, certamente teremos produtos de qualidade.
    Fica aqui meu voto!

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