“…E o Vento Levou”, um marco na vida de um super cinéfilo

Alyrio Pinto Monteiro

Alyrio Pinto Monteiro foto: Cláudia Valls

Se perguntado qual o filme que mais o marcou, Alyrio Pinto Monteiro, um cinéfilo de carteirinha, responderá sem pestanejar: “…E o Vento Levou”. O épico de Scarlett O’Hara e Rhett Butler só veio a confirmar o seu amor à sétima arte, que começou ainda na infância.

Em seu sétimo aniversário, Alyrio ganhou de presente ingressos para assistir ao filme “Aventuras de Tom Sawyer” (1938 – “The Adventures of Tom Sawyer”, de Norman Taurog), em companhia de sua tia. Não era a primeira vez que ia ao cinema, mas é a primeira recordação que tem da experiência, que voltou a se repetir inúmeras vezes ao longo se sua vida.

Alyrio é um típico morador de Copacabana: já passou dos 70 anos, é aposentado e caminha na praia de seu bairro quase que diariamente. O que talvez o diferencie do restante de seus vizinhos é o fato de ser um super cinéfilo.Coleciona fitas de VHS e DVDs, todas devidamente cadastradas, para não se perder na hora de comprar mais um título para sua coleção. Também tem livros dedicados ao cinema, além de uma vasta discoteca, repleta de trilhas sonoras. É figura conhecida tanto em lojas populares, como Lojas Americanas e Casa & Vídeo, como na Modern Sound, onde os vendedores já o saúdam avisando que determinado item previamente procurado já chegou.

Nascido em Matias Barbosa (MG), Alyrio logo se mudou para Juiz de Fora, cidade vizinha, porém maior e com melhores chances de estudo e emprego para toda a família. Para sua sorte, moravam perto de uma sala de projeções, e ele conta que, depois das aulas de catecismo, ganhavam entradas gratuitas para irem assistir a curtas-metragens, quase sempre animações ou documentários dedicados ao público infantil. Também existia a matiné do Mickey, às 10h30m, no Cine Theatro Central, onde as crianças não pagavam ingressos. E lembra-se que os filmes coloridos eram os de sessões mais concorridas.

Mas o marco cinematográfico de sua vida foi, definitivamente, “…E o Vento Levou” (1939 – “Gone With The Wind” – Victor Fleming), a que já assistiu inúmeras vezes, sendo que sete só no cinema. Outras vezes assistiu novamente na própria TV, depois em VHS e, finalmente, em DVD. Alyrio conta uma curiosidade: quando o filme foi lançado no Brasil, em 1940, ele não pôde assistir, pois o Juizado o considerava impróprio para menores, por conter uma cena de parto. Só pôde vê-lo um ano depois, quando cortaram a tal cena.

Como aos 11 anos já trabalhava durante o dia e estudava à noite, o cinema passou a ser sua única diversão nos finais de semana. Eram os tempos da Segunda Guerra Mundial, e os cinemas apresentavam uma infinidade de filmes sobre o tema e suas variações (como espionagem), mas foi também quando Hollywood investiu em grandes musicais, como forma de aliviar as aflições do mundo inteiro.

Desde então, quase nada escapou ao seu olhar, já crítico. Um exemplo é que, apesar de gostar muito dos filmes nacionais, logo reparava nos problemas técnicos. Um dos que mais o incomodavam eram os cortes, extremamente mal feitos (todos eram “fade in”). Outro problema era a dublagem, pois não se filmavam com som direto. Ele lamenta: “Quando um ator roda uma cena, ele tem uma carga emotiva que não se reflete na hora da dublagem.” Além do cinema brasileiro, que sempre acompanhou – filmes das produtoras Atlântida, Cinédia e Vera Cruz – também se mantinha atualizado com o que vinha do exterior. Adora a fase dos filmes italianos do pós-guerra, como “Ladrões de Bicicleta” (1948 – “Ladri di Biciclette”, de Vittorio de Sica), os ingleses, como “Interlúdio” (1946 – “Notorious”, de Alfred Hitchcock) e, obviamente, os americanos. “A Malvada” (1950 – “All About Eve”, de Joseph L. Mankiewicz), “Os Brutos também Amam” (1953 – “Shane”, de George Stevens), “Sindicato de Ladrões” (1954 – “On The Waterfront”, de Elia Kazan) e “Cantando na Chuva” (1952 – “Singin’ in the Rain”, de Stanley Donen e Gene Kelly) são alguns de seus preferidos.

Apesar de “detestar” a Nouvelle Vague, não deixou de assistir a nenhum dos filmes desse movimento. E conta uma história curiosa: quando o filme “O Ano Passado em Marienbad” (1961 – “L’Année Dernière à Marienbad”, de Alain Resnais), “as críticas internacionais eram unânimes em apontá-lo como uma obra-prima. Fui assistir a ele no cinema Mesbla. Público selecionado, todos com cara de intelectuais. O filme começou – ou melhor, se arrastou. Silêncio total na plateia. Até que um dos ‘intelectuais’ não aguentou e gritou: ‘Que filme chato!’ Todos riram às gargalhadas e o ambiente se desanuviou, pois todos concordaram com a opinião do espectador irritado, mas morriam de vergonha de admitir”, se diverte.

Confiram as Pipocas com Alyrio

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