Bruno Safadi: foi o cinema que me escolheu

Bruno Safadi

Bruno Safadi

Bruno Safadi é diretor de cinema e televisão. Foi assistente de direção de Julio Bressane e Nelson Pereira dos Santos, além de ter convivido com Rogério Sganzerla. Dirigiu também cinco curtas-metragens antes de lançar seus dois primeiros longas – “Meu Nome é Dindi” e “Belair”. Atualmente, esse carioca de 29 anos e dez de profissão prepara seu terceiro longa-metragem, a ficção “Éden”, além de ser um dos “embaixadores” do “Curta Criativo”. No meio de uma agenda atribulada, Bruno arrumou um tempo para nos dar esta entrevista.

Bruno, você é diretor, roteirista e produtor e já trabalhou em TV, teatro, shows. O que o levou à indústria audiovisual e, mais especificamente, ao cinema?
Bruno Safadi: Olha, essa pergunta é sempre difícil de responder. E a resposta pode parecer arrogante, mas juro que é a verdade. Não fui eu quem escolheu o cinema, e sim o cinema quem me escolheu. Escolhi estudar cinema na época do vestibular, quando tinha 16, 17 anos. Passei para o curso de cinema da UFF, que na época (1998), era o melhor do Rio de Janeiro e talvez do Brasil. Lá foi tudo muito rápido. Em um ano, um ano e meio, já trabalhava profissionalmente com cinema. Com apenas 19 anos de idade, já era assistente do Julio Bressane, um dos grandes diretores de cinema do Brasil e do mundo.

“Meu Nome é Dindi”, filme dirigido por você, foi vendido para o canal de TV Sundance Channel, para 40 países, e ganhou 5 prêmios nacionais e internacionais. Poderia nos contar qual é a sensação de fazer sucesso tão jovem?
Bruno: Olha, a primeira sensação foi de alívio. “Meu nome é Dindi” foi o meu primeiro longa-metragem como diretor. Escrevi, produzi e dirigi sozinho. O filme foi quase todo financiado por mim. Foi um investimento muito grande, que me custou três anos de muitas contas. Foi um sacrifício muito grande. Então, ter esse reconhecimento foi um alívio, pois vi que investi na coisa certa. Não foi uma ideia de maluco. O filme estreou no Festival do Rio de 2007 e foi para a Mostra de SP do mesmo ano. Em janeiro de 2008, ganhou o prêmio de Melhor Filme da Mostra de Tiradentes e a partir daí conseguiu um contrato de distribuição da Riofilme para o lançamento no circuito nacional. O filme estreou em 15 cidades, recebeu ótimas críticas e, por último, foi vendido para o Sundance Channel, que acho que foi um presente por todo o meu esforço. Hoje, o filme pode ser visto também no Canal Brasil.

Você foi assistente de direção de Julio Bressane e Rogério Sganzerla. Poderia nos contar um pouco da experiência de trabalhar com esses cineastas?
Bruno: Na verdade, eu trabalhei como assistente de direção apenas do Julio Bressane. Com o Rogério Sganzerla, eu organizei a Mostra Belair, em 2000, e tive a oportunidade de acompanhar o processo de ensaios de uma peça que ele dirigiu, “Savanna Bay”, com a Helena Ignez e a Djin Sganzerla. Depois, há um ano atrás, dirigi junto com a Noa Bressane o “Belair”, que é o longa-metragem sobre a produtora homônima que o Sganzerla e o Bressane tiveram em 1970.
Trabalhar com o Julio Bressane foi o meu grande aprendizado em cinema. O Julio é um dos maiores diretores do cinema mundial, atualmente. Seu trabalho é muito reconhecido, não apenas no Brasil, mas muito na Europa, nos EUA e na America Latina. E eu não fiz apenas um filme com ele, fiz quatro. Então, foi um trabalho muito intenso, de muita parceria e aprendizado. E o nosso trabalho não se resumia ao set de filmagem. Iniciava o trabalho ainda no roteiro e ia até o lançamento. Um trabalho completo. E por tudo isso, eu digo que essa foi a minha maior escola. Eu aprendi como se faz um filme, do início ao fim.

Você já dirigiu curtas e longas-metragens. Também já assinou documentários e ficção. Qual a linguagem que mais o atrai?
Bruno: A linguagem que mais me atrai é a da criação. Seja curta ou longa-metragem, documentário ou ficção, o que eu estou atrás é da criação, da invenção, do novo. Estou em busca da contramão de mim mesmo. Procuro me reinventar a cada trabalho e aprender com o processo de cada filme. Apesar de já ter feito muitos filmes, sou muito jovem e me considero um iniciante nessa área misteriosa da criação cinematográfica. Mas se tivesse que escolher uma área apenas, eu escolheria o cinema de ficção. A ficção me fascina.

Em sua opinião, qual a importância de um concurso como o “Curta Criativo” para o mercado audiovisual?
Bruno: Acho que é importantíssimo. O curta-metragem é ainda a melhor maneira de se iniciar no cinema. Esse foi o caminho que percorri antes de chegar ao longa-metragem: fazer curtas-metragens. Fiz 5 curtas-metragens antes de dirigir o primeiro longa. E vejo hoje que isso foi fundamental para eu ter maturidade artística para fazer longas-metragens. E os curtas que dirigi foram fundamentais para o mercado do audiovisual acreditar no meu trabalho e investir nele.
Creio que hoje o “Curta Criativo” é o único concurso de curtas-metragens do Rio de Janeiro, que é o maior estado produtor de cinema do Brasil. Então, veja você: se o estado que mais produz cinema no Brasil tem apenas um concurso de curtas-metragens, esse concurso é fundamental.

Que papel você desempenhará como embaixador do “Curta Criativo”?

Bruno: Olha, acho que o melhor papel que posso desempenhar é ser um exemplo para quem está começando a carreira no cinema. Sou uma pessoa que não veio de família que já trabalhava em cinema, nem em qualquer arte. Não tinha grandes contatos, nem nada. Fui apenas fazer faculdade de cinema, e as coisas aconteceram como contei. Claro, corri muito atrás. Trabalhei bastante, trabalhei com grandes diretores, como o Bressane, o Nelson Pereira dos Santos, o Ivan Cardoso, fiz também muitos filmes, viajei para muitos festivais, estudei e estudo muito até hoje. Mas sou uma pessoa como outra qualquer e acho que esse é um exemplo que posso passar como embaixador do “Curta Criativo”.

Poderia dar um conselho aos jovens cineastas que estão tentando entrar no mercado agora?
Bruno: Acho que o conselho que posso dar é: primeiro, ter perseverança, pois a carreira de cineasta é muito concorrida e difícil. Segundo, acho que os jovens cineastas devem estudar muito. Ver muitos filmes, ler muito, não apenas sobre cinema, mas sobre artes em geral, ler filosofia e tudo o que tange o Homem. E o mais importante é fazer filmes. O cinema é uma arte que você aprende fazendo. Você aprende com os seus próprios erros e acertos. E toda arte se faz disso e sua beleza está justamente nisso, nos erros e nos acertos de cada um. É aí que se evidencia o artista.

pipocaPipocas com Bruno Safadi

De que filme mais gosta?
Bruno: Não existe UM filme do qual mais gosto. Essa é uma pergunta impossível de eu conseguir responder.

Qual a cena ou diálogo que mais te marcou no cinema nacional?
Bruno: A sequência final de “Sem Essa Aranha”, do Rogério Sganzerla. É uma sequência linda, com o Luís Gonzaga tocando num plano sequência de 10 minutos sem corte. É emocionante!

Com quem você não deixa de trabalhar em seus projetos, ou seja, quem não pode faltar em suas produções (qualquer pessoa: produtor, equipe técnica, qualquer tipo de ajudante)?
Bruno: Tenho alguns parceiros que são muito fiéis a mim e dos quais espero estar junto em muitos novos filmes. São eles: o diretor de fotografia Lula Carvalho, o diretor de arte Moa Batsow, o montador Rodrigo Lima e a assistente de direção Sofia Saadi.

Indique 3 filmes nacionais indispensáveis na formação de um jovem cineasta.
Bruno: Indicarei quatro filmes: “Limite”, do Mário Peixoto; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, do Glauber Rocha; “O Bandido da Luz Vermelha”, do Rogério Sganzerla; e “Matou a Família e Foi ao Cinema”, do Julio Bressane.

O que não pode faltar em um curta-metragem?
Bruno: Muita dedicação, muito esmero e não ter medo de errar.

2 comentários para “Bruno Safadi: foi o cinema que me escolheu”

  1. Muito boa a iniciativa do Curtacriativo em entrevistar um cineasta tão novo, como o Bruno Safadi, porém com tanto talento e compromisso, como pode ser visualizado na narrativa de seus filmes e de sua forma de enxegar o cinema.
    Fico muito feliz com a entrevista e me espelho em sua trajetória na carreira…
    Sucesso a todos…

  2. [...] Bruno Safadi: “Primeiro, ter perseverança, pois a carreira de cineasta é muito concorrida e difícil. Segundo, acho que os jovens cineastas devem estudar muito. Ver muitos filmes, ler muito, não apenas sobre cinema, mas sobre artes em geral, ler filosofia e tudo o que tange o Homem. E o mais importante é fazer filmes.” [...]

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