“O curta-metragem não é um degrau na direção do longa, mas um formato que deve ser respeitado como tal.” A afirmação é do cineasta Cacá Diegues, que, mesmo após ter conquistado reconhecimento no cinema brasileiro com filmes como “Cinco Vezes Favela”, “Xica da Silva” e “Bye Bye Brasil”, continuou produzindo curtas-metragens.
Em entrevista ao “Curta Criativo”, Diegues falou sobre o seu próximo longa-metragem “O Grande Circo Místico”, sua experiência na época da ditadura, e ainda deu algumas dicas para os jovens cineastas que estão iniciando carreira: “Seja sempre sincero, faça apenas aquilo em que você acredita de verdade.”
Um dos fundadores do Cinema Novo, o cineasta já ganhou títulos como Comendador da Ordem de Mérito Cultural e Medalha da Ordem de Rio Branco, esta a mais alta do país, destinada aos merecedores do reconhecimento do Governo brasileiro.
Confira a entrevista
Você ingressou na PUC-RJ para estudar Direito. Entretanto, logo fundou um cineclube e iniciou suas atividades de cineasta amador. O cinema sempre fez parte dos seus planos?
Cacá Diegues: Sempre fui um cinéfilo. Mas só realizei que poderia ser um cineasta quando encontrei pessoas da minha idade que tinham, em relação ao cinema, os mesmo sentimentos que eu.
Sua primeira produção profissional, “Escola de Samba Alegria de Viver”, um dos episódios do longa-metragem “Cinco Vezes Favela” foi um marco na cinematografia nacional. De onde surgiu a ideia do filme?
Diegues: A ideia original era de Leon Hirszman, que a propôs ao Centro Popular de Cultura da UNE, do qual todos nós fazíamos parte.
Você voltou agora do Festival de Cannes, onde apresentou o filme “5x Favela, Agora Por Nós Mesmos”, desta vez com episódios dirigidos por jovens cineastas oriundos de comunidades carentes. Qual é a sensação de ver uma releitura de uma obra da qual tomou parte?
Diegues: Mais do que uma “releitura”, este filme é uma refundação de um certo cinema brasileiro. É como se todos nós estivéssemos começando de novo.
Você sobreviveu à ditadura militar, filmando “Quando o Carnaval Chegar”, “Joana Francesa” e “Xica da Silva”, e quase sucumbiu ao governo Collor. O que era pior: driblar a censura na época da ditadura ou não conseguir realizar nenhum (ou pouquíssimos projetos) por conta de uma política que quase extinguiu o cinema nacional?
Diegues: A ditadura nos tirou o prazer de fazer cinema e nos obrigou a uma espécie de estética do murmúrio, onde dizíamos o que era possível dizer. Mas o massacre cultural que Collor impôs à nação foi uma castração total.
A França lhe concedeu o título da Ordem das Artes e das Letras (l’Ordre des Arts et des Lettres), da qual já é hoje Oficial (Officier). O governo brasileiro, por sua vez, também lhe concedeu o título de Comendador da Ordem de Mérito Cultural e a Medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta do país. Todos os títulos e medalhas são o reconhecimento oficial da importância de sua obra. Você tem a sensação de dever cumprido?
Diegues: Não vim ao mundo para ganhar medalhas, mas é claro que elas são agradáveis de receber, são uma prova de que alguém nos ama. Acho que, ao longo de minha vida, tenho feito o que posso.
Você já está com uma nova produção em andamento, “O Grande Circo Místico”, adaptação de poema homônimo de Jorge de Lima. É grande a expectativa de voltar a dirigir um filme, depois de cinco anos?
Diegues: Claro. Não vejo a hora de começar a filmar, este é momento mais prazeroso que uma pessoa pode ter na vida.
Mesmo depois de se tornar um cineasta reconhecido, você ainda produziu alguns curtas-metragens. Em sua opinião, qual a importância de concursos de curtas, como o “Curta Criativo”, para a indústria audiovisual?
Diegues: O curta-metragem não é um degrau na direção do longa, mas um formato que deve ser respeitado como tal. Um concurso como o “Curta Criativo” é sempre alguma coisa de muito positivo para a indústria e a criação do audiovisual.
Que conselho daria a um jovem cineasta que está começando sua carreira cinematográfica?
Diegues: Seja sempre sincero, faça apenas aquilo em que você acredita de verdade.












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