
César Coelho
“Se não tem uma boa ideia ainda, então nem comece.” Este é o conselho dado por César Coelho, diretor do Anima Mundi, Festival Internacional de Animação do Brasil, para aqueles que estão ingressando no mundo da animação cinematográfica. Segundo o animador, ter uma boa ideia é o passo essencial para a execução de um filme, já que o acesso à tecnologia não é mais um problema. “Você tem acesso facilmente às tecnologias que permitem fazer filmes de animação com qualidade profissional até para cinema. O problema mesmo, e eu insisto nisso, é você achar uma boa ideia e desenvolver uma linguagem competente para contar essa ideia legal.”
César Coelho, que participou do júri do “Curta Criativo” 2009, dá dicas para os participantes do concurso deste ano. Para ele, no ano passado, os curtas-metragens de animação eram criativos, mas precisavam de um pouco mais de aperfeiçoamento. “É preciso planejar bem antes de começar a fazer o filme.” O diretor ainda falou sobre as novidades da 18ª edição do Anima Mundi, que acontece de 16 a 25 de julho, no Rio de Janeiro, e de 28 de julho a 1º de agosto, em São Paulo.
Confira a entrevista exclusiva para o “Curta Criativo”.
Como o cinema entrou na sua vida?
César Coelho: Eu sempre gostei muito de contar histórias, de contar piadas e de desenhar. Inclusive, comecei trabalhando como ilustrador e chargista. Nunca imaginei que fosse conseguir fazer animação. Na época, há 25 anos, fazer animação no Brasil era um sonho muito difícil. Mas houve um convênio entre o Brasil e o Canadá, para a compra de um satélite, e também um convênio entre a Embrafilme e a National Film Board, que é uma produtora do governo do Canadá, e eles, na época, eram uma das maiores produtoras de animação do mundo. Então, abriram um intercâmbio para treinar dez artistas brasileiros de animação. Houve um concurso nacional e eu tive a sorte de estar entre esses dez. Foi assim que comecei a fazer cinema.
Que dica você daria para quem está ingressando no mundo da animação?
César: A primeira coisa fundamental é uma boa ideia. Uma vez, nós trouxemos um francês para o Anima Mundi que falou que são necessárias três coisas para fazer animação. Primeiro uma boa ideia, segundo não pode faltar uma boa ideia e terceiro, claro, também não pode faltar uma boa ideia.
Se você não tem uma boa ideia ainda, então, nem comece. Vai pensando em sua ideia e em como ela pode se traduzir em animação. Então, depois disso, você vai começar a fazer uma pesquisa das suas habilidades e ver qual técnica de animação mais se adapta ali. Hoje em dia, a tecnologia corre muito a favor da gente. Você tem acesso facilmente às tecnologias que permitem fazer filmes de animação com qualidade profissional até para cinema. Então, isso não é um problema. O problema mesmo, e eu insisto nisso, é você achar uma boa ideia e desenvolver uma linguagem competente para contar essa ideia legal.
Qual a importância do concurso “Curta Criativo” para o mercado audiovisual?
César: Concursos como esses são fundamentais, porque é a melhor maneira de entrar na profissão. Não precisa ganhar o concurso, mas basta você se destacar, ser visto no concurso ou no festival. Isso abre a possibilidade de as pessoas te conhecerem por seu estilo, por sua maneira de contar uma história, por sua maneira de fazer filme. Quando você inscreve um trabalho seu em um festival ou em um concurso, você está ali mostrando o seu melhor. E, se esse trabalho aparece, se tem algum sucesso, as pessoas vão te procurar justamente por causa disso, por causa do seu melhor.
Você fez parte do júri em 2009. Como foi a experiência de ter que escolher um entre tantos filmes?
César: Vi muita criatividade, embora vi que tinha pouco trabalho. Pouco trabalho no sentido de burilar. Vi potencialmente boas ideias, principalmente bons filmes, mas que precisariam um pouco mais de trabalho, um pouco mais de aperfeiçoamento. Eles ainda ficariam muito melhores se tivessem um pouco mais de investimento. Mas foi muito bom, e o resultado foi, de maneira geral, muito estimulante. Espero que esse ano fique melhor ainda.
Você acha que é justamente isso que falta no mercado de curta-metragem atualmente no Brasil?
César: É, eu acho que sim. Vale a pena, principalmente em animação, investir na pré-produção, o que, muitas vezes, retorna para você na hora da produção. Então, antes de começar a produzir o filme, pense sobre ele, faça sua história, faça o roteiro, faça o Animatic, faça o storyboard, planeje bem o que você vai fazer e, depois, comece a fazer o filme. Esse é um conselho que dou para todo mundo que quer fazer animação, principalmente, para aqueles que querem se inscrever no “Curta Criativo” deste ano.
Você foi um dos palestrantes nos eventos que o “Curta Criativo” promoveu em universidades na última semana. Você acha que essas iniciativas em faculdades estimulam os estudantes a fazerem curtas-metragens?
César: Eu acho que sim. Hoje em dia, há milhões de recursos para você fazer curtas. As possibilidades estão aí. Mesmo que não tenha lugar onde passar, tem o YouTube, por exemplo, onde seus amigos vão ver, onde todo mundo vai ver. Mas tem que fazer. Eu acho que todas as vezes que nos reunimos para falar de cinema, sempre aprendemos alguma coisa. Eu espero, pelo menos, que tenhamos dado estímulo e criado vontade para continuarem fazendo ou começarem a fazer filmes. É um processo que, se a pessoa tiver paciência, perseverança e humildade para aprender, ele será contínuo, e a pessoa só tem a se desenvolver.
Qual a sua expectativa para o Anima Mundi deste ano?
César: Está muito bom. Este ano, completamos 18 anos. Brincamos, dizendo que agora já podemos ser presos. Mas, nesta edição, acho que a seleção de filmes é a melhor que tivemos nesses 18 anos. Teremos algo novo: as master classes. Antigamente, fazíamos workshops que eram para, no máximo, 20 pessoas. Agora, não. Vamos fazer aulas com os melhores profissionais do mundo, em determinadas áreas, para 150 pessoas. Então, vamos abrir muito, e haverá oportunidade de aprender sobre temas como sonoplastia, uso de efeitos especiais para animação, criação de personagens, entre outros. São temas que abordaremos e que vão ampliar muito mais o alcance das informações de um workshop.
Outra coisa interessante é o fórum, onde vamos discutir o ensino de animação no Brasil e a necessidade que temos de formar novos profissionais, porque a indústria está demandando muitos profissionais, atualmente. Vamos discutir também a produção de animação em 3D, como se faz para produzir animação em 3D, que, hoje em dia, é quase uma imposição.
Pipocas com César Coelho
Qual é o melhor filme, em sua opinião? Por quê?
César: “As Bicicletas de Belleville”. É um filme de animação fantástico. Esse autor é maravilhoso. Tem uma animação impressionante. É um filme que, na época em que a computação gráfica está imperando, foi feito tradicionalmente e ganhou, merecidamente, todos os prêmios possíveis.
Qual é a melhor cena ou diálogo de um filme nacional a que tenha assistido?
César: Acho que esse não posso responder com todas as palavras, mas posso dizer, apenas: “O meu nome é Zé Pequeno.”
Dê uma dica de três filmes a que os novos cineastas não podem deixar de assistir
César: Eu acho que tem que ver: “The Lost Thing”, um filme que está no Anima Mundi deste ano e é um curta-metragem maravilhoso; qualquer filme do Hayao Miyazaki ; e, tem que ver um filme que gosto muito, “The Secret of Kells”. É um filme irlandês que 50% da sua produção foi feita no Brasil, além de ter um design maravilhoso.
O que é mais importante na produção de um curta-metragem?
César: Ter uma boa ideia.











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