
Gustavo Spolidoro
“Vão procurar a turma de vocês!” Foi com esse conselho do cineasta brasileiro Carlos Gerbase que Gustavo Spolidoro, vencedor da categoria Melhor Curta-Metragem Documentário do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2010, decidiu formar sua equipe para fazer seus filmes e seguir carreira no cinema nacional. E, atualmente, é esta mesma dica que o diretor dá aos novos cineastas: “Mãos à obra!”
Spolidoro acredita que se deve ter sempre em mente a identidade própria na hora de filmar o curta-metragem. “Não fazer filmes para os outros, fazer para si”, aconselha. Outra característica importante, segundo o diretor, é a organização no processo de execução de um filme. “Essa coisa de improvisar, de chutar o balde, essa postura anárquica, só dá certo com gênios ou com pessoas experientes.”
Spolidoro falou ainda sobre as dificuldades ao fazer seu primeiro curta-metragem, da experiência de filmar dois curtas e um longa-metragem em um plano sequência apenas e de filmes importantes na formação de um cineasta, entre outros assuntos. Leia a entrevista do diretor ao “Curta Criativo”.
Você se formou em publicidade. Por que decidiu fazer cinema?
Spolidoro: Fiz publicidade porque não tinha cinema aqui no Rio Grande do Sul em 1992/96. Na verdade deveria ter feito jornalismo. Foi muito frustrante estudar e depois trabalhar com publicidade. O cinema estava em mim desde pequeno. Meu pai sempre me incentivou a ver, entender e pensar cinema. Nunca fui um espectador passivo. Assim, foi mais fácil a adaptação e compreensão de como é fazer cinema.
Quais foram as dificuldades que passou quando decidiu fazer seu primeiro curta-metragem? Recebeu algum apoio?
Spolidoro:Eu tinha um primeiro projeto que nunca realizei, mas que eu inscrevia em concursos desde que me formei, chamado “Palhaçada”. No meio do caminho, criei o “Velinhas” e com ele ganhei o Fumproarte, na segunda tentativa. Não sabia o que seria da minha vida. Pensava em ser crítico. Então, o “Velinhas” foi feito e deu certo, ganhou muitos prêmios, foi a festivais importantes como o de Berlim e, a partir dali, surgiu uma carreira.
Dois de seus primeiros curtas (“Velinhas” e “Outros”) foram filmados em um único plano sequência, sem cortes. Por que você optou por esse modelo logo no início da sua carreira?
Spolidoro:Não foi puramente fetiche, como muitos pensam. Aliás, o fetiche do “Velinhas” estava no fato de ser feito com luz de velas. O plano sequência surgiu, em um primeiro momento, para baratear a produção (16 mil reais, filmado e finalizado em 16 mm), pois não teria montagem, uma diária de set apenas, entre outras facilidades. Mas claro que, para realizá-lo assim, foi necessária uma compreensão do plano sequência, e aí a coisa cresceu.
O “Outros” já surgiu como um plano sequência, não só pelo “Velinhas”, mas também pela referência principal dele, que é o curta-metragem “Documentário”, do Rogério Sganzerla, de 1966. Eu vi esse curta em um evento em São Paulo e saí de lá, na outra manhã, direto pra Porto Alegre, de ônibus, 18 horas, com o filme fervilhando na minha cabeça. Nesse caminho, fiz um manuscrito que guardo até hoje, com o esqueleto do filme. Cheguei em casa, contei para a Aline Rizzotto (namorada e produtora na época) e para o Cristiano Trein (amigo e cineasta), e ambos adoraram.
Em seu longa de estreia, “Ainda Orangotangos”, você foi ainda mais ousado, filmando em um único plano de mais de 80 minutos. Por que essa opção?
Spolidoro:Eu tinha outros projetos de longa que nunca se concretizaram. As pessoas me cobravam e me desafiavam a fazer um longa em plano sequência. Aí, quando li o “Ainda Orangotangos”, livro do Paulo Scott, encontrei ali os elementos, personagens e histórias que se encadeariam em um longa assim. E foi isso. Ainda tento entender como conseguimos fazer um filme assim, pelas ruas e prédios da cidade! Olhando para trás, parece impossível. Méritos dos loucos que aceitaram a empreitada, meus sócios na Clube Silêncio e principalmente as produtoras – Camila Groch, Jaqueline Beltrame, Aline Rizzotto e mais um monte de gente – e dos meus assistentes, Janaína Fischer e Vicente Moreno, que desenharam essa complexa trip por Porto Alegre.
Esse longa foi produzido a partir de um edital para filmes de baixo orçamento do MinC. Que dicas você pode dar para os jovens cineastas que querem produzir seus filmes, mas não têm muito dinheiro?
Spolidoro:Fazer os filmes! Assim nós começamos no Super-8, eu, Trein, Cristiano Zanella, Fabiano de Souza, Rafael Sirângelo e dezenas de outros da nossa geração. Hoje está mais fácil que nunca. Todo mundo tem uma câmera no bolso. Estão surgindo muitos longas chamados no-budget (“Ainda Orangotangos” é chamado low-budget) e fazendo sucesso em festivais, principalmente. Quando eu era “guri” no cinema, entrevistamos o Gerbase e ele disse “vão procurar a turma de vocês!” É mais ou menos isso. Se não tivesse essa turma, não teríamos feito esses filmes e, possivelmente, uma carreira. Mãos à obra!
O que um jovem cineasta deve ter em mente na hora de filmar o seu curta?
Spolidoro:A sua identidade! Não fazer filmes para os outros, fazer para si. E, assim, encontrará o seu público, as pessoas que dividem com ele aquela visão de mundo, de cinema, técnica e narrativa. Além disso, organização, muita organização. Ser sistemático ou ter na equipe alguém que sistematize as coisas (produtor e/ou assistente). Essa coisa de improvisar, de chutar o balde, essa postura anárquica, só dá certo com gênios ou com pessoas experientes. Picasso estudou tudo para depois perverter o todo.
Você já recebeu prêmios importantes, mesmo sendo um jovem diretor. Que mensagem de incentivo você pode dar para os inscritos no Curta Criativo?
Spolidoro:Quando a gente se dá conta, já passou! Já passou a dor, a tristeza, o gol do Inter, o Natal. Já passou a insegurança de fazer um filme e, quando a gente vê, estamos com 10 anos de carreira, ensinando os outros a fazer cinema. Tudo é passado.
Pipocas com Gustavo Spolidoro
1. De que filme mais gosta?
Brasileiro: “O Bandido da Luz Vermelha”;
Estrangeiro: “Maridos e Esposas”, “Um Assaltante Bem Trapalhão” e “Zelig”, todos do Woody Allen; “Ondas do Destino”, de Lars Von Trier; “30 Anos Esta Noite”, de Louis Malle; e “Anjos Caídos”, de Wong Kar-wai;
Curta-metragens: “Tropel”, de Eduardo Nunes; “Palíndromo”, de Phillipe Barcinski; “O Velho, o Mar e o Lago”, de Camilo Cavalcante; e “Copy Shop”, de Virgil Widrich.
2. Qual cena ou diálogo que mais te marcou?
No curta “O Velho, o Mar e o Lago”, o velho, sozinho numa ilha, deprimido, pega um regador e diz: “Eu vou me regar que é pra ver se eu nasço de novo.” Essa frase é uma das mais belas que já escutei no cinema.
3. Com quem você não deixa de trabalhar em seus projetos? Quem não pode faltar em suas produções?
Muitos daqueles com que trabalho até hoje são colegas de primeiro filme. O ator Júlio Andrade, a produtora Aline Rizzotto, o desenhista de som Cristiano Scherer, os eletricistas Beto Ramos e Mau-Mau, meu amigo e colega Eduardo Wannmacher, dentre outros.
4. Indique três filmes nacionais indispensáveis na formação de um jovem cineasta.
Além dos citados acima, “Deu Pra Ti Anos 70”, do Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti; “Os Matadores”, do Beto Brant; e “Bang Bang”, do Andrea Tonacci.
5. O que não pode faltar em um curta-metragem?
Criatividade e experimentação










