Julio Worcman: Curta-piada é uma boa tendência do curta brasileiro

Julio Worcman

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A produção de curtas-metragens no Brasil, atualmente, está ainda mais volumosa que a das décadas de 1980 e 1990. É o que afirma Julio Worcman, idealizador do site Porta Curtas, uma nova janela de exibição para o formato, reunindo boa parte das obras brasileiras recentes. “A quantidade de curtas ótimos tende a aumentar, naturalmente. Por outro lado, a maior oferta de financiamento por meio de editais e o próprio barateamento dos custos de produção trazem junto uma maior quantidade de insucessos”, comenta.

Para o produtor e distribuidor de programas audiovisuais, a produção brasileira de curtas-metragens é muito irregular, mas, ao mesmo tempo, livre, o que permite o surgimento de novas tendências dentro do cinema nacional. A que mais se destaca, em sua opinião, é o “curta-piada”.

Em sua entrevista para o “Curta Criativo”, Worcman ainda aconselhou os jovens cineastas a prestarem atenção a dois pontos importantes na hora de filmarem seus curtas. “A tecnologia não se sobrepõe ao roteiro, à interpretação. Após assegurar estes dois, faz bem aos olhos e à alma do espectador uma boa fotografia, um bom som. Um filme mal realizado pode detonar uma boa ideia, bom conteúdo.”

1.    Por que você decidiu seguir a carreira do cinema, depois de trabalhar em redações de jornais?

Julio Worcman: No jornal, eu já escrevia sobre a produção audiovisual independente brasileira. Decidi criar uma distribuidora para exportar títulos daqui por ter identificado uma oportunidade na onda de privatizações das emissoras europeias.

2.    Como surgiu a ideia de criar o Porta Curtas?

Worcman: Após ter exportado muitos curtas brasileiros para emissoras de grande audiência, comprovando a excelência da produção nacional, não me parecia cabível que no Brasil os curtas circulassem apenas em festivais especializados. Percebi que cada curta poderia achar seu espectador via internet, se estivesse promovido e linkado em páginas jornalísticas cuja temática tivesse relação com a do filme.

Uma primeira experiência foi reveladora. Em meados do ano 2000, no portal de esportes do UOL, de enorme tráfego, estava em grandes manchetes o falecimento do goleiro Barbosa, responsabilizado pela derrota do Brasil na final da Copa de 1950 contra o Uruguai, por ter “engolido um frango”. Conseguimos acordo com o pessoal do UOL para linkar sob o título “Veja imagem do gol da derrota e entrevista com o goleiro no curta ‘Barbosa’, de Jorge Furtado”. Em instantes, havíamos registrado solicitações de milhares de espectadores para assistir ao curta. Estava criado o conceito do Porta Curtas, que alude à portabilidade do filme, que pode ser “servido” em diferentes ambientes contextuais.

3.    Como você classifica a qualidade dos curtas-metragens brasileiros?

Worcman: Em geral, muito boa. Temos hoje no país uma produção ainda mais volumosa que a dos anos 80 ou 90. A quantidade de curtas ótimos tende a aumentar, naturalmente. Por outro lado, a maior oferta de financiamento por meio de editais e o próprio barateamento dos custos de produção trazem junto uma maior quantidade de insucessos.

4.    Existem diferenças entre os curtas brasileiros e estrangeiros? Quais seriam as principais?

Worcman: Consigo identificar características de “nacionalidade” em algumas produções, em algumas épocas ou safras, como o humor negro que marcou algumas safras da produção de curtas norueguesa ou o terror ou horror em algumas safras australianas. Mas percebi algo identificável assim na produção brasileira, que é bastante irregular, e ao mesmo tempo livre. O “curta-piada” é uma boa tendência do curta brasileiro.

5.    Em que os jovens cineastas devem estar atentos na hora de fazer seu curta?

Worcman: Planejar muito bem antes de filmar, fazer o filme na imaginação e no papel. No set de filmagem nada se cria, já me disse o experiente Guel Arraes.

6.    A tecnologia evolui a cada dia e a forma de fazer cinema também. Em sua opinião, o que não pode faltar em um curta-metragem atual?

Worcman: A tecnologia não se sobrepõe ao roteiro, à interpretação. Após assegurar estes dois, faz bem aos olhos e à alma do espectador uma boa fotografia, um bom som. Um filme mal realizado pode detonar uma boa ideia, bom conteúdo.

7.    Você acha que o número de jovens interessados em cinema e, principalmente, em curtas-metragens, aumentou? Por quê?

Worcman: Na prática, há o radical barateamento dos meios de produção de um filme. Mas há também uma febre, fazendo com que muita gente queira ser cineasta, talvez em parte pela grande difusão de teses acadêmicas que defendem a ideia do fazer audiovisual como um exercício de cidadania, de pessoalidade.

8. O Porta Curtas é um dos apoiadores do “Curta Criativo”. Qual é a importância de um concurso como esse, de curtas-metragens, para o mercado audiovisual?

Worcman: É através dos concursos como o “Curta Criativo”, de curadorias, que os bons curtas têm a oportunidade de aparecer e galgar o mundo, se destacar em meio ao enorme volume de produção atual.

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