
Paulo Henrique Fontenelle
No curta-metragem, a pessoa pode exercitar a criatividade sem estar preso a qualquer tipo de compromisso, a não ser suas próprias convicções. É desta forma que o diretor Paulo Henrique Fontenelle classifica a importância do curta na formação de um jovem cineasta. “O nosso cinema carece de boas ideias e o curta-metragem é sempre um caminho para desenvolver a criatividade e a liberdade da nova geração de cineastas que irão surgir”, completou.
Portanto, segundo o diretor, incentivar a formação de novos profissionais do audiovisual, com concursos como o “Curta Criativo”, é uma ação que “merece aplausos”, sendo de extremo valor para o futuro do cinema brasileiro. Na entrevista, Fontenelle ainda falou de como a experiência de fazer o curta “Mauro Shampoo – Jogador, Cabeleireiro e Homem” o ajudou na filmagem de seu primeiro longa “Loki”. “O curta-metragem foi uma grande escola”.
Em seu primeiro filme, “Mauro Shampoo – Jogador, Cabeleireiro e Homem”, você desempenha nada menos do que nove funções, entre elas a de diretor, produtor, roteirista, diretor de fotografia, técnico de som e autor da trilha sonora. Como conseguiu exercer todas essas tarefas?
Paulo Henrique Fontenelle: O “Mauro Shampoo” foi um filme totalmente independente, feito por, basicamente, três pessoas. Eu e o Leonardo Cunha Lima como diretores e a Daniele Abreu e Lima como produtora. Não tínhamos dinheiro, apenas duas câmeras emprestadas e milhas de viagem pra nos levar pra Recife onde ficamos hospedados em casas de parentes. Por trabalharmos nessa estrutura tão enxuta, fomos obrigados a desempenhar as mais diversas funções. Tanto eu como o Leonardo somos fanáticos por cinema e por todas as etapas de produção. No fundo foi prazeroso poder desempenhar todas essas funções. O curta-metragem foi uma grande escola para nós.
“Mauro Shampoo – Jogador, Cabeleireiro e Homem” foi muito elogiado e premiado. São 16 prêmios, entre nacionais e estrangeiros. Poderia contar um pouco sobre essa repercussão?
Fontenelle: O filme fez sua estréia no encerramento do Festival de Recife de 2006 para uma platéia de três mil pessoas que o aplaudiu de pé. No final da sessão, já estávamos convidados para outros cinco festivais. Ganhamos o prêmio especial do júri no FAM e o de trilha sonora no Guarnicê. Mas, foi no Festival do Rio, que o filme se consagrou levando três prêmios, dentre eles o de melhor curta pelo voto popular.
Mauro esteve presente na ocasião e, por ele ser uma figura tão carismática, conseguimos acesso a todos os veículos de comunicação, sendo matéria nos principais jornais e programas de televisão, como Bom Dia Brasil e Jô Soares, algo inédito em se tratando de um curta-metragem, ainda mais trabalhando sem assessoria de imprensa. A partir daí, foram mais de uma dezena de prêmios no Brasil e no Exterior, dentre eles o de melhor curta no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2007. Passado quatro anos de sua estréia, o filme ainda continua sendo convidado para passar em mostras pelo mundo. Esse mês ele passou na Alemanha e nos Estados Unidos e de quebra ainda ganhou o prêmio e melhor curta do Cinefoot.
Foi difícil passar do curta para o longa-metragem? O que muda na produção de cada formato?
Fontenelle: Não foi nada muito complicado essa transição. Na verdade, a única coisa que mudou foi o tamanho da história. Acredito que cada filme deve se adaptar ao tamanho. Quando filmamos o “Mauro Shampoo”, tínhamos no final mais de 40 horas de filmagem que transformamos em 22 minutos. Muitas pessoas diziam que eu deveria ter feito um longa, mas chegamos a conclusão que esticar demais a história poderia transformar um ótimo curta em um longa razoável. Mas não tenho dúvida de que fazer o “Loki” se tornou muito mais fácil depois de ter passado pela experiência do curta um ano antes.
Qual a importância que um concurso como o “Curta Criativo” tem em relação ao mercado audiovisual?
Fontenelle: Incentivar a formação de novos cineastas é sempre algo que merece aplausos. O nosso cinema carece de boas ideias e o curta-metragem é sempre um caminho para desenvolver a criatividade e a liberdade da nova geração de cineastas que irão surgir. Por isso, um concurso como o “Curta Criativo” é de extremo valor para o futuro do nosso cinema.
Que conselhos daria a um jovem cineasta que está entrando no meio cinematográfico agora?
Fontenelle: O mais importante é saber correr os riscos da profissão e não abrir mão daquilo que você acredita. Saber que no curta-metragem você pode exercitar toda a sua criatividade sem estar preso a qualquer tipo de compromisso a não ser as suas convicções.
Pipocas:
Qual o filme de que mais gosta?
Fontenelle: “Magolia” do Paul Thomas Anderson, “Os Amantes do Círculo Polar” de Julio Meden e “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” de Michel Gondry.
Qual a cena ou diálogo que mais te marcou no cinema brasileiro?
Fontenelle: A cena em que Fábio Júnior toca acordeon durante uma viagem de caminhão no filme “Bye Bye Brasil” e todos permanecem em absoluto silêncio. Fico pensando no que passava na cabeça de cada um daqueles personagens. Uma imagem que ficou na minha cabeça desde criança pela beleza de uma cena sem diálogos conduzida apenas pela música.
Com quem você não deixa de trabalhar em seus projetos, ou seja, quem não pode faltar em suas produções (qualquer pessoa: produtor, equipe técnica, qualquer tipo de ajudante)?
Fontenelle: Uma pessoa que sempre esteve ao meu lado em todos os trabalhos que fiz é o Carlos Toré. Estudamos juntos no mesmo colégio e em todos os filmes amadores que fazíamos em VHS, ele sempre desempenhava algum papel como ator. Nosso interesse pela arte começou com a música. Tínhamos um grupo onde eu tocava piano e ele guitarra. Fizemos mais de 40 músicas juntas e cada um seguiu o seu caminho. Eu fui estudar cinema e ele abriu um estúdio de gravação. Quando fiz meu primeiro vídeo de ficção em 2002, não tive dúvidas em chamá-lo para sonorizar. A partir daí, a parceria continuou. Ele sonorizou o “Mauro Shampoo” e vários documentários e programas que fiz pra TV. Atualmente, ele assinou a sonorização e a mixagem do “Loki” e foi indicado ao prêmio de melhor som da Academia. Espero que a parceria continue. Enquanto houver a oportunidade de trabalharmos juntos, fazer cinema, com certeza, será sempre mais divertido.
Indique três filmes nacionais indispensáveis na formação de um jovem cineasta.
Fontenelle: “O Pagador de Promessas” de Anselmo Duarte, “Todas as Mulheres do Mundo” de Domingos Oliveira, e “Cidade de Deus” de Fernando Meireles.
O que não pode faltar em um curta-metragem?
Fontenelle: Criatividade, liberdade e amor pelo seu projeto.











[...] mérito do diretor Paulo Fontenelle foi convencer um grande elenco a embarcar na viagem de Intruso (The Guest, 2009), seu primeiro [...]
Concordo que “o curta-metragem é sempre um caminho para desenvolver a criatividade e a liberdade”, mas discordo que “O nosso cinema carece de boas ideias e o curta-metragem é sempre um caminho para desenvolver a criatividade e a liberdade da nova geração de cineastas que irão surgir. Pelo contrário, acho que os amantes do cinema são extremamente criativos, sendo que o que falta mesmo é incentivo, fomento educativo e financeiro.