
Victor Van Ralse
Para Victor Van Ralse, educador do Cinema Nosso, “se não há plateia, não há cinema”. Por isso, em sua entrevista para o “Curta Criativo”, ele convidou todos os cineastas para exibirem suas produções no Espaço Cinema Nosso. “Se alguém que está lendo essa entrevista quiser passar o seu filme lá, pode deixar um comentário aqui no blog que entraremos em contato.”
Van Ralse acredita que os cineastas precisam trocar e caminhar juntos para fazer um bom filme e, segundo ele, a fórmula para isso está em 2% de talento, 90% de transpiração e 8% de boca a boca. “Cinema se faz com cabeça, coração e tesão.”
O educador ainda acrescenta que uma boa história é o que não pode faltar em um curta-metragem. “No fundo, no fundo, todos nós queremos contar alguma coisa, pode ser linear ou experimental, ousado ou criativo. Como diria Fernando Pessoa: ‘É o que fica depois que passa’, uma boa história.”
Veja a entrevista
Você é um dos educadores do Cinema Nosso, organização social cuja missão institucional é “ampliar o universo cultural e contribuir para o desenvolvimento do senso crítico de crianças, adolescentes e jovens oriundos das classes populares através da linguagem audiovisual”. O que o motivou a se juntar à organização?
Victor Van Ralse: Acredito muito no desenvolvimento do indivíduo de forma integral. Quero dizer que, para desabrochar a personalidade crítica, e acima disso, atuante, se faz necessário conhecer para depois, se necessário, transgredir. Conhecer o meio que nos cerca e principalmente conhecer a si mesmo nos faz um ser humano melhor. E não há forma melhor de adquirir conhecimento do que através da educação.
Há anos vivemos com o audiovisual em nossas vidas, quer se queira ou não. Educar as crianças e jovens no conhecimento do audiovisual é fundamental para que se tornem pessoas melhores nos seus ambientes, além de ser uma obrigação de quem trabalha na área.
O Cinema Nosso faz isso. E faz muito bem. No Cinema Nosso, o aluno é tratado como alguém que não só veio para estudar áudio e vídeo, mas como parte integrante de um todo, que envolve o seu interesse pelo estudo, suas relações com os outros e consigo mesmo.
Estar num projeto assim, onde não há o banal assistencialismo, mas sim um acompanhamento evolutivo, é um prazer para o profissional.
Como surgiu a ideia do Cinema Nosso?
Victor Van Ralse: Bem, estou como Educador do Cinema Nosso há dois anos apenas, não estou desde o início de tudo, quando surgiu como Nós do Cinema, oriundo das oficinas do filme “Cidade de Deus”, e posteriormente mudou o seu foco e se tornou o Cinema Nosso, para novas batalhas, e assim permanece hoje.
A minha ideia de ir para o Cinema Nosso veio da vontade de permanecer dando aulas de cinema. Já vinha de uma experiência gratificante como professor de documentário e edição no projeto “Viajando na Telinha”, dos cineastas Antonio Pitanga e Antonio Molina, e me encantei com o processo de fazer filmes com grupos de alunos. Então cheguei ao Cinema Nosso, para ser educador de cinema, e me integrei à equipe de profissionais da instituição.
Quais são as oficinas em que leciona?
Victor Van Ralse: Sou o educador dos cursos de cinema. Eles se dividem em três módulos, que podem ser associados poeticamente ao famoso “Luz, câmera, ação” do cinema. O primeiro módulo é o Cinema Básico, onde os alunos encontram pela primeira vez o universo da sétima arte. Estudam desde o roteiro até a finalização, passando pela história do cinema até a realização de um curta. O segundo módulo é o Cinema Intermediário, onde há um aprimoramento da técnica cinematográfica. E no terceiro módulo, Cinema Avançado, damos ênfase à experimentação e estudamos outras linguagens do audiovisual.
Além dos cursos regulares, ministro algumas oficinas, como a de filmes em celular.
Cinco filmes do Cinema Nosso participam da 9ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. “Até Quando?” (turma de Animação, 2009/2), “Brisa” (turma de Animação Básica, 2009/1), “Infância” (turma de Animação Avançada, 2009/1), “O Primitivo” (turma de Cinema Básico, 2009/2) e “Família Vegan” (Produtora Escola, 2010) foram escolhidos entre 71 filmes concorrentes da mostra. Como se sente ao ver que o trabalho que vem desenvolvendo está sendo reconhecido?
Victor Van Ralse: É bacana o reconhecimento desses filmes, porque o processo no Cinema Nosso é coletivo, como o próprio cinema deve ser, e isso prova que dá certo. Fui o educador da turma de Cinema Básico que realizou o “O Primitivo”, que é um roteiro bem escrito, leve, e foi bem conduzido pela turma. Essa turma merece que o filme seja visto. Os outros são de animação, sob a orientação das educadoras Ana Rita Nemer e Ivana Grehs.
Desde sua criação (há nove anos), o Cinema Nosso já realizou 45 cursos e 70 oficinas, além de ter produzido mais de 100 curtas-metragens exibidos em diversos festivais nacionais e estrangeiros. Todos esses dados lhe dão a sensação de dever cumprido?
Victor Van Ralse: Me dão a sensação boa de que o trabalho deve continuar.
Costumo dizer nos encontros com os alunos que um filme pode nunca acabar e te consumir durante um tempo muito grande. Para evitar isso, tem um momento que você deve dar o próximo passo e deixar o que já tem. E quando o filme chega na finalização e fica, digamos, pronto, devemos nos desapegar dele e colocá-lo no mundo.
Qual a importância de um concurso de curtas-metragens, como o “Curta Criativo”, para a indústria audiovisual?
Victor Van Ralse: “Curta-metragem é pra família ver.” Já ouvi muito isso durante a faculdade, mas não fazemos o filme só pra eles, fazemos primeiramente para nós e principalmente para o público. Sem os festivais, mostras, cineclubes, etc., para onde iria o curta? Então, é de suma importância para o curta a existência dos festivais como o “Curta Criativo”.
Ainda ressalto a importância dos festivais para a formação de plateia. Como a gente não tem mais a obrigatoriedade do curta antes do longa nas salas de exibição, tem que haver uma outra forma de exibir, e os festivais são responsáveis por isso.
Se não há plateia, não há cinema, gente!
O Cinema Nosso tem uma sala de exibição bem bacana, que pode passar curtas, médias e longas. Se alguém que está lendo essa entrevista quiser passar o seu filme lá, pode deixar um comentário aqui no blog que entraremos em contato. Isso é uma troca bem legal.

Alunos do Cinema Nosso
Que conselho costuma dar a seus alunos que desejam ingressar na carreira cinematográfica?
Victor Van Ralse: Aproveitando aquela máxima de que conselho não se dá, digo para eles fazerem o que o coração disser que é certo e que a cabeça é para pensar e não colocar fones de ouvido. Estar na posição de educador é saber trocar. No primeiro encontro, digo logo que se eu for ensinar e eles aprenderem, estamos em caminhos diferentes. A gente tem é que trocar para caminhar juntos e fazermos um filme. Eles vêm com a força de vontade, criatividade e ação, e eu só oriento, tenho só uma parte nisso.
Não digo nada muito novo não, digo coisas assim: a fórmula de filme bom são 2% de talento, 90% de transpiração e 8% de boca a boca. Têm duas frases de que gosto muito e aplico na minha vida, e levo isso para os encontros com os alunos. A primeira é de um professor que eu tive, o diretor de fotografia Edson Batista: “ Cinema se faz com cabeça, coração e tesão.” e a outra é do professor Henrique José de Souza: “Realização através do caráter e da cultura”, ele disse isso se referindo à construção de um Brasil melhor pela ação das crianças e jovens. Bacana, né?
Pipocas
De que filme mais gosta?
Victor Van Ralse: Perguntinha complicada. Para gostar de um filme, levo em consideração o seu contexto e o seu projeto. O porquê, o como e quem faz o filme é muito importante para mim, claro, quando dá para saber essas coisas. Gosto do Spike Lee. Vou citar o último que vi, “Milagre em Santa Anna”. Gosto dos filmes do Eduardo Coutinho, adoro “Cabra Marcado pra Morrer”, “Santo Forte” e “Jogo de Cena”. Sou muito fã e gosto muito dos filmes do Jorge Furtado. Vejo o “O Homem que Copiava” praticamente 5 vezes no ano. “Ilha das Flores” e “Sanduíche” são muito bem feitos. Também gosto muito de “Pulp Fiction”, do Tarantino, e adoro coisas de nerd tipo “Star Wars” e “Star Trek”. Sou muito fã de ficção científica.
Qual a cena ou diálogo que mais te marcou no cinema nacional?
Victor Van Ralse: “À Meia-Noite Levarei a sua Alma” do José Mojica Marins. O filme todo é muito bom. A cigana anunciando pragas no início é Macbeth, o Zé do Caixão sendo arrastado para o inferno é memorável, cenas fantásticas. Quanto ao diálogo, no “O Homem que Copiava” do Furtado, o André está fazendo compras no mercado, é a primeira cena. Ele está comprando coisas para casa e tem que levar os fósforos, mas a grana não dá para tudo. Ele leva a carne ou leva os fósforos! É um diálogo primoroso!
Com quem você não deixa de trabalhar em seus projetos, ou seja, quem não pode faltar em suas produções (qualquer pessoa: produtor, equipe técnica, qualquer tipo de ajudante)?
Victor Van Ralse: Eu acho importante fazer filmes onde pessoas que não são do meio vejam. Então, eu busco meus amigos da juventude que são leigos em fazer filmes. Eles veem muita coisa e são muito criativos. Contar com amigos é sempre bom. Sempre que possível, um aluno participa de algum trabalho comigo. Estar com os jovens é muito bom.
Indique três filmes nacionais indispensáveis na formação de um jovem cineasta.
Victor Van Ralse: 3 filmes, 3 momentos da história cinematográfica brasileira:
- “Limite” (1930) do Mário Peixoto, é único.
- “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) do Rogério Sganzerla, é visceral!
- “Saneamento Básico, o Filme” (1997) do Jorge Furtado, é genial.
O que não pode faltar em um curta-metragem?
Victor Van Ralse: Essa é fácil – uma boa história. No fundo, no fundo, todos nós queremos contar alguma coisa, pode ser linear ou experimental, ousado ou criativo. Como diria Fernando Pessoa: “É o que fica, depois que passa”, uma boa história.











olá
li a matéria e adorei
fiz um curta experimental e quero passar em tudo que é lugar, o problema é arrumar alguma produtora disposta a acreditar nele,
se puder me ajudar ficarei muito feliz
um grande abraço e parabéns pelo trabalho
ahh eu sou fã de “Limite” também , mas quando digo pros meus amigos todo mundo pensa que se trata de algum seriado americano ahahahah
Olá
Fizemos um curta metragem, e gostaríamos que fosse passado no espaço Cinema Nosso.
Por favor, analise o curta:
http://www.youtube.com/watch?v=ETboZ2pqP3M
http://www.youtube.com/watch?v=LLVVneGub2g
Se for possível, agradecemos alguma análise do curta por parte do Cinema Nosso.
Obrigado
Carlos
Olá Carlos! Pedimos que você entre em contato com o Espaço Cinema Nosso. Eles poderão te dar mais informações sobre como rodar seu filme lá. Cinema Nosso – 2505-3300
Abraço,
Equipe do Curta